20110106

Não-nomeado* ou Menininho perdido**

Começava a sentir que aquela sensação de não sentir-se, de acolhimento e calor morno esvair-se; acordara, sabia-o.

Como em um daqueles filmes que gostava de assistir, abriu um depois outro ocular, de forma muito lenta e vagarosa, como se nada no mundo fosse mais importante do que aquele ato.

A luminosidade o incomodou, não que houvesse muita luz no recinto ,porque quase não havia, a luz matinal parecia não existir naquele dia, de tão pálida que estava, contudo fechou-os novamente e tão rápido que parecia tê-los ferido com uma claridade chamejante.

Virou-se. Ficou de rosto à parede, como se, mesmo de olhos selados, a parca luz o machucasse ainda, todo encolhido em posição fetal, tentando em vão, resgatar a sensação de não pertencer-se, que acabara de perder.

Levantou-se e caminhou até a janela...

Não! Seria uma hipérbole imaginar que aquilo poderia ser considerado uma caminhada, era mais parecido com um arrastar no espaço ridiculamente ínfimo entre a cama e janela. E esta, nesta manhã, mostrava um céu cinza chumbo e o clima apresentava-se com o hálito fresco e levemente frio, um perfeito dia para se tomar café, fumar e ficar fazendo nada.

Após espreguiçar-se, caminhou pela casa descalço e de cuecas; foi-se até a cozinha pegar um café fresco na cafeteira, acendeu um cigarro e encaminhou-se para a varanda, onde se largou no balanço e ficou a apreciar o tempo.

A mente relaxada trouxe-lhes lembranças... Lembranças de um dia muito parecido com este ,e que ele tinha a sensação de que há muito decorrera, como se tivesse sido em uma outra vida.

- Ele estava lá, naquele mesmo banco, e junto dele, abraçado e com a cabeça apoiada em seu peito, brincando com o cordão do seu calção, aquele menino de cabelos escuros lisos e caídos no rosto, de tez clara e olhos mel... –

Tais lembranças fizeram pequenos impulsos elétricos percorrerem por todo o seu corpo, queimando-o inteiro. Sorriu. Aquele menino, a sua mera lembrança, ainda mexia muito com ele, fazia-o sentir-se bobo. Bobo do tipo apaixonado.

De repente, uma pica-flor passou por seus olhos e foi até os lírios da jardineira, e isso fez com que ele despertasse daqueles sonhos, levemente perturbado.

Perguntava-se porque ainda deixava-se influenciar por aquilo, afinal, tudo tinha sido há tanto tempo atrás e não havia motivos de ficar relembrando o passado, aquilo não voltaria e nem ele queria...

Levantou-se, pegou mais café e voltou a ficar largado no balanço da varanda, e assim passou a manhã.

*Uma das minhas primeiras experiências em conto.
** Nome dado por Danilo Leonardi

3 ronronados:

Danilo Leonardi disse...

Que lindo!
Mas veja bem...
Ele tem casa, deve ter carro... arranja outro menininho pra ele! =D
Bjus me liga!
Mas ficou lindo, hehe, bem tocante na parte da lembrança.

Heliane disse...

Só posso dizer e afirmar que eu amei a sutileza com que descreves cenas intensas de um amor que ainda perturba os pensamentos do personagem.
E destacar também a riqueza de detalhes que você cria ao longo da estória.
E por fim, mas não menos importante, te PARABENIZAR pelo dom da escrita literária que dominas. Tá simplesmente lindo!
Beijos, meu lindo.

dan disse...

Gostei.