25 janeiro 2011

Entre Deus e homem - excerto

Por Silvestre Silva

Diz Petrônio que fora o medo que inventara as divindades.

Deus é o que é. O homem é o pequeniníssimo bicho da Terra, de que fala o Camões.

Entre Deus e homem, só a soberba estúpida do homem, podia inventar convenções, concordatas, obrigações e alianças.

O sagui é muito menos estúpido e mais modesto. Come, bebe, dá cabriolas, faz caretas ao mau tempo, coça-se ao sol, retouça-se à sombra, vive, e acaba feliz, porque não se receia de vir a ser homem.

A estolidez do homem! Diz ele empapado de vaidade tola: "Deus tem os olhos em mim!" Que importância! Deus tem os olhos nele! Se assim fosse, havia de ver bonitas coisas o criador do homem que mata o se irmão!

Os olhos nele, para quê? Para envergonhar-se a cada hora da sua obra!...

É o blasfêmia em todo o seu asco!

Rebalsa-te em sangue, miserável vampiro! emperla os teus cabelos, meretriz, que deixas morrer tua mãe de fome! Mãe infame, come aí em toalhas de Flandres o preço da desonra de tua filha! Ostentai-vos, vermes, aos olhos de Deus, que estão pasmados em vós!...

CASTELO BRANCO, C. Coração, cabeça e estômago. organização e apresentação de Paulo Franchetti. - São Paulo: Martins Fontes, 2003. - (Coleção Biblioteca Martins Fontes)

Um comentário:

  1. Não há blasfêmia quando Deus se torna qualquer coisa que caiba no desejo humano.

    ResponderExcluir

Ronrone à vontade.