30 dezembro 2010

A Confissão de Lúcio

Em 1914 é editada, pela primeira vez, A Confissão de Lúcio, do português Mário de Sá-Carneiro, estória  de raiz simbolista. A novela narra os acontecimentos estranhos que levaram Lúcio, a personagem que vai ao título, a condenação de dez anos de prisão.

A narrativa tem início quando Lúcio é libertado e, então, resolve contar os acontecimentos, que havia calado, no fundo de sua alma, por todos os anos em que esteve no cárcere.

Sendo assim, a estória é narrada em primeira pessoa, à luz das ponderações e reminiscências de dez anos, e mesmo assim, mesmo com a certeza de que tudo o que ele ali deita é verdade, também é inverossímil. Ou seja, ele mesmo não acredita de todo no que ali é apresentado, justamente por, também, não poder lembrar-se com certeza de todos os detalhes dos fatos (uma característica típica de narrativas em primeira pessoa, baseada em fatos guardados na memória, passíveis de esquecimentos e/ou manipulação).

Tendo feita essas considerações prévias, acerca a novela, passemos ao enredo que ela nos apresenta.

Lúcio, então em Paris, trava conhecimento com Ricardo Loureiro, um conterrâneo seu, e passam a vivenciar uma intensa amizade por mais ou menos um período de dez meses.
Então, Ricardo decidiu-se por voltar a Lisboa.

Um ano passa sem que os amigos [man]tenham um contato estreito até que, por motivos materiais e saudades de Ricardo fazem com que Lúcio também retorne à capital portuguesa.

Já em Portugal, Lúcio conhece Marta, companheira de Ricardo, e entre eles se dará um envolvimento amoroso muito peculiar. Com o passar do tempo, Marta também passa a se envolver com outros homens, coisa que em primeiro angustia Lúcio, mas nada que seja superior ao sofrimento que lhe causa saber que Ricardo tinha conhecimento dos relacionamentos extraconjugais que a companheira mantinha.

Tomado por essa dor dilacerante, Lúcio parte sem prévio aviso para Paris, lá permanecendo por seis meses, alienando-se dos acontecimentos em Lisboa.

Ao retornar a Lisboa, num encontro inesperado, Lúcio se vê em frente a Ricardo, que após ser interpelado e acusado por conta dos atos de Marta, começa a se explicar.

Tomado por uma vontade de fazer-se entender e mostrar a Lúcio que ele; só ele, seu amigo – é quem realmente importava. Ricardo o leva até sua casa, onde no quarto em que a companheira está a janela a folhear um volume, atira-lhe a queima-roupa. No entanto, não é Marta que tomba ao ser atingida pela bala e sim, Ricardo. A arma cai aos pés de Lúcio, que é indiciado e condenado pelo crime, que é tido como passional.

Agora, voltemos a tecer algumas considerações acerca a obra.

O envolvimento entre Lúcio e Marta é permeado por situações simbólicas, ratificadas por pistas que vão além do texto escrito, sendo mesmo enfatizadas pela mudança de estilo tipográfico que, nos levam a conjecturar que Marta, que não é encontrada após o assassinato de Ricardo, é fruto de uma imaginação fértil e por um sentimento de vergonha [este último sentido por ambos] em relação a um possível envolvimento homossexual entre os amigos.

Sendo que, o jogo de tentar discernir o que é verdadeiramente possível do que é verdadeiramente imaginado, por meio das pistas, não só de conteúdo discursivo e tipográfico, o brilho desta novela escrita pelo português Sá-Carneiro, que tem em sua epígrafe "... assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro viveria..." [Fernando Pessoa – Na Floresta do Alheamento]” a perfeita síntese do enredo apresentado.

E Marta:
— Que beijo tão desengraçado! Parece impossível que ainda não saiba dar
um beijo… Não tem vergonha? Anda, Ricardo, ensina-o tu…
Rindo, o meu amigo ergueu-se, avançou para mim… tomou-me o rosto…
beijou-me…
O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, tivera a mesma cor, a mesma
perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira. [p. 113]

SÁ-CARNEIRO, Mário de. A Confissão de Lúcio. 4ª edição. Lisboa: Edições Ática, 1973.

Um comentário:

Ronrone à vontade.