13 julho 2010

Assobios Nocturnos

Naquela noite, do meu quarto, escutei um barulho, um assobio de pássaro tênue e persistente. A lua estava cheia, plena; em seu ápice no negror da noite, reinava soberana num céu sem estrelas. Na manhã seguinte ele havia desaparecido.

Ele nunca fora de acreditar naquelas estórias que as velhas senhoras do fim da rua contavam, embora gostasse de ouvi-las quando menino, agora, mais velho, por volta de dezessete anos que passara a crer menos ainda nos seres da mata ou qualquer outro encantado que faziam parte da vida daquelas anciãs.

Entretanto ele havia começado a notar que algumas coisas andavam estranhas nas vilas que ficavam próximas da nossa. Ouviam-se boatos de que jovens estavam a desaparecer, tanto homens como mulheres e sempre de noite. Em noite de lua cheia. E sempre depois de um assobio tênue e persistente de pássaro.

Nas casas dos desaparecidos não havia marcas de arrombamento ou qualquer indício de que algum estranho tinha adentrado à propriedade. Com medo, as pessoas começaram a dormir com as portas dos quartos trancadas, as delas e as de seus filhos púberes. Todavia, os jovens continuavam desaparecendo, mesmo com essas medidas de segurança. Até que, do nada, os desaparecimentos paravam e começavam em outro lugar.

As luas foram se sucedendo uma a uma e a única coisa que eles conseguiram descobrir de comum entre os desaparecidos, além de serem todos adolescentes, foi que eles haviam encontrado com um homem jovem, vestido com uma calça jeans escura e uma camiseta branca de mangas compridas, que portava chapéu e usava chinelos. Também fumava um cigarro.

Então os desaparecimentos começaram a acontecer na nossa vila, mesmo com a orientação para que os jovens não andassem sozinhos ou que falassem com estranhos. Mas dessa vez o pior não eram os desaparecimentos apenas, e sim a quantidade de pessoas que estavam sumindo ao mesmo tempo. Pessoas que andavam juntas, também desapareciam juntas.

Das velhas senhoras, ele começou a escutar que isso era arte do Tibanaré, só que ele não dava crédito para as tagarelices delas, mesmo porque ele conhecia a estória daquele encantado e nada dizia respeito a sumiço de jovens.

De acordo com o que escutara, que foi o mesmo que todos nós escutamos quando crianças, o Tibanaré era um velho índio de rosto bem enrugado, que andava ao entardecer, bem silenciosamente. Ao encontrar crianças em seu caminho lhes pedia fumo e, quando estas não lhe atendiam, o que acontecia na maioria das vezes, as levava embora.

Até que um dia, topou com o tal homem de calças jeans, camisa branca, chinelos e chapéu. Ele estava com mais uma menina e o irmãozinho menor, na hora que o encantado apareceu em seu caminho.

Aquele homem se aproximou deles e, tanto para ele como para a menina, pediu um beijo. A menina, que o havia achado lindo e talvez querendo fazer ciúmes, deu. Ele limitou-se a um sinal negativo, bem enfático, com a cabeça. O homem os cumprimentou com um aceno de chapéu sem dizer palavra e se afastou, vagarosamente, acendendo um cigarro. Flanando. O sol caía e a lua cheia já despontava no céu, ainda pálida.

Então, naquela noite, do meu quarto, eu escutei um barulho, um assobio de pássaro tênue e persistente. A lua estava cheia, plena; em seu ápice no negror da noite, reinando soberana num céu sem estrelas. Na manhã seguinte ele havia desaparecido.

2 comentários:

  1. Menino, q medo!
    Vc tem escrito coisas nesse sentido, não me diz q vai sumir de uma hora pra outra rsrsrs!
    Adorei o texto, meeesmo!
    BEijo

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  2. Dan... adorei! Cada vez mais gosto dos seus trabalhos. Continue sempre e sempre, beijos!

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Ronrone à vontade.