11 fevereiro 2010

Giovanni

Por Daniel Prestes*


Em nome de todas as suas pequeninas e hipócritas moralidades. E você... Você é imoral. Sem comparação é o homem mais imoral que já conheci em minha vida.
Giovanni


Giovanni’s Room ou apenas Giovanni, nome dado a versão brasileira traduzida por Affonso Blacherye, é uma obra de James Baldwin, escritor negro americano dos novecentos, que retrata os conflitos de um jovem que sai de casa, de seu país e acaba vivendo um romance homossexual com um italiano, Giovanni, em Paris.

A tradução de Blacherye não é o que se poderia chamar de um primor, isso se deve ao fato de que ela possui erros de estruturação sintática e problemas em algumas expressões francesas que não são fáceis de apreender o significado e que não possuem notas de rodapé explicativas, e isso faz com que a leitura empaque em determinados momentos, o que é um pecado, tendo em vista que a história é muito envolvente.

O romance de Baldwin narra o envolvimento de David e de Giovanni, a partir da ótica daquele, enquanto sua noiva, Hella, viaja pela Espanha. Não é uma narrativa em tempo linear, quando começa Giovanni e ele já se encontram separados, e Giovanni condenado a guilhotina. Hella e ele também não estão mais juntos.

Para entendermos toda a complexidade do relacionamento entre os rapazes, o narrador (David) busca coisas anteriores a sua ida a França, como o relacionamento com o pai, a primeira vez que se relaciona com outro rapaz no início de sua puberdade e os sentimentos envolvidos, além, é claro, de fazer reflexões sobre os acontecimentos e até suposições acerca o que os outros pensavam e sentiam ou mesmo como algumas ações se desenrolaram.

Baldwin consegue criar um ambiente envolvente, podem-se sentir de verdade as sensações, os humores, os sentimentos todos vividos pelas personagens, as melhores passagens ficam a encargo de Giovanni, com suas respostas inusitadas e tão cheias de verdade, de ironia e humor, como no primeiro flerte que ele tem com David no bar de Guillaume, bem como as manifestações de dor ao saber que será abandonado por David.

A cena da primeira vez de David também é sublime, como se disse anteriormente, as sensações são sentidas, e não são sensações quaisquer, são os desejos, angústias de um adolescente por volta de seus 14 anos que acabou de passar a noite, de descobrir os prazeres do corpo, com seu melhor amigo.

Sobre o cenário, fica evidente que, o fato de, o quarto de Giovanni sempre ser recordado com um local escuro e sujo; que faz brotar nojo e asco em David é metáfora para o que ele acha do relacionamento que ele vive com o rapaz, tal entendimento fica mais claro quando vemos que, ao lado de Hella o ambiente é limpo, claro e quente, mostrando assim o que é socialmente considerado permitido em questões de envolvimento amoroso. Afora isso, o quarto também representa a intimidade, o desejo e que tais, só podem se dar neste tipo de ambiente, um local fechado; longe das vistas do mundo, tendo em vista que o quarto de Giovanni fica muito longe da cidade, reforçando ainda mais a metáfora do que é aceitavél.

Não obstante o romance vai além, não conta apenas uma estória, um relacionamento entre dois homens e todos os dramas e alegrias que relacionamentos como este, e como de qualquer outro tipo, podem trazer. Ele é confissão de um crime, e não me refiro aqui ao cometido por Giovanni, que só vamos descobrir nas páginas finais do livro, e sim ao cometido por David e sua visão do que é moral, decente. Busca de compreensão. A compreensão de que, o que foi vivido foi amor. Um amor, que como todo amor que se preze, foi um paraíso e um inferno, no qual ambos acabaram de certa forma, por serem destruídos; e destruindo alguns entorno.

Por isso que Giovanni deve ser lido, sem preconceitos, porque ele vai além do estigma de ser um romance homossexual, mostra a hipocrisia social tão presente em nossa vida e a universalidade trágica do amor.


[BALDWIN, J. Giovanni. tradução de Affonso Blacherye. – São Paulo: Abril Cultural, 1981.]


*Daniel Prestes, estudante do curso de graduação em Letras - Língua Portuguesa da UFPA.

2 comentários:

  1. Minha miopia quase não deixa eu ver o lugar pra colocar o devido comentário... Bom, me deixaste curiosa, quero ver a dica "Giovanni" que deste :}
    Apareça meu bem, abraços, te cuida e fica na paz!!
    Beijos com cheiro de café :}

    Obs: É a Lari... Lembra? Hehehe :D

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  2. Danzito, o texto original é em inglês ou francês? Conseguimos achar pela net...? Bjm =*

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Ronrone à vontade.