16 janeiro 2010

Pour moi les gestes ne comptent pas*

Uma frase simples: gestos.

Gestos não contam.

O gesto sexual que eu exigi de Eduardo como prova de amor. Minha necessidade de gestos. Minha glória nas demonstrações ardentes de June. Minha tempestade de rebeldia quando Allendy, apesar de seu amor, não fez o gesto final. A mágoa que guardo de John. Minha necessidade, minha necessidade de gestos. Situação agravada pelo fato de eu ser expressiva, afetuosa, de eu me exteriorizar constantemente, de que cada emoção sentida ganha imediatamente uma forma, uma expressão - em comparação Eduardo, Hugo e Allendy pareciam inertes. Mas a necessidade de gestos originou-se da falta de confiança. Se eu tivesse percebido ainda a tempo que Eduardo me amava, Hugo me amava e Allendy também - na verdade, todos eles de um modo mais profundo do que Henry jamais amou -, eu não teria me ofendido com a ausência de gestos. Henry me abençoou com gestos (...); mesmo assim, eu sempre soube que o amor de Henry era menos profundo. Allendy, sabendo que era isso exatamente o que eu não aceitaria - que para me satisfazer eu tinha de possuir um homem de corpo e alma - que eu não daria ouvidos a raciocínios, acordos, deficiências, neuroses que tornassem a fuzão impossível - que minha possessividade era tremenda em relação ao medo do abandono - lutou para me incutir essa consciência, para ao menos eu poder me livrar da dor.

Logo ficou claro o quão desesperadamente eu tentara possuir Allendy por inteiro, como um troféu, enquanto o que busco é um pai, um amigo. Ele percebeu e lutou contra tudo isso, anulou-se para me curar. Hoje o poder de sua vontade e a argúcia de sua intuição me impressionaram - porque eu de fato o seduzi, o encantei; de fato ele tremia diante de mim, hesitava ao me dirigir a palavra - o triunfo dele foi supremo.

Foi após me despedir dele que tudo ficou claro, enquanto eu caminhava pela rua, absorta, falando sozinha. Gestos! Com certeza minha autoconfiança aumentara, sim, mas eu ainda desejava gestos, troféus, vitórias.

*Para mim os gestos não contam

NIN, Anaïs. Incesto: De um diário amoroso: o diário completo de Anaïs Nin, 1932-1934. p. 137.

Um comentário:

Ronrone à vontade.