17 janeiro 2010

1º de junho de 1933

Visita de Bradley, que é muito compreensivo, que disse muitas coisas interessantes. Ele sabe que um artista deve ser egoísta, inumano. Disse que Lawrence era fraco; Lawrence foi morto por Frieda porque era fraco - humano demais. Lawrence deveria ter se livrado, escapado. Henry também ficou tempo demais com June. Eu fui humana demais com Mamãe e humana demais com Hugo.

Enquanto Bradley falava comigo, pensei na frequência com que retorno ao velo problema: o diário, a arte, o que incluir, o que contar, como contar. Bradley diz: "Deixe o diário de lado. Apenas escreva enquanto fala comigo."

É verdade que ele me faz falar! Suas perguntas não acabam. Ele tem um profundo interesse por mim e por meu trabalho, que me comove. Eu gostaria de guardar tudo. Me sinto orgulhosa, reticente, como diante de uma platéia. Fico magoada ao me entregar, ao entregar os meu diários. Me sinto nua em meio à multidão. É uma tortura. Quando falo, sinto que minto imperceptivelmente para me proteger. Uso disfarces. Detesto me mostrar como sou. As mentiras parecem disfarces, mentirinhas, principalmente esquivas, pois temo não ser compreendida, temo a dor. E o que não digo, derramo no diário. Me irrito porque as pessoas não entendem, mas isso é minha culpa. A verdade é que só encaro os outros aos pedaços. Henry, que ficou com a maior parte de mim, Hugh, Allendy, Joaquin, Papai. Sempre encontro o mensonge vital* necessário - a mentira capaz de me separar das pessoas. Será que Papai ficará com o todo, como o diário ficou? O que terei a esconder de Papai? Sempre um segredo, e esse segredo cria o diário. E então William Aspenwall Bradley aparece e me pede, em nome do mundo, para entregar todos os meus segredos.

Antes de ele chegar, comecei a abrir as caixas de metal onde guardo os meus diários. Duas delas eu não pude abrir. Uma chave quebrou e a outra girava solta dentro da fechadura. Símbolos!

* "Mentira vital". Em francês no original. (N.T.)

NIN, Anaïs. Incesto: De um diário amoroso: o diário completo de Anaïs Nin, 1932-1934. p. 168.

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