18 novembro 2009

Bakhtin

Vidas não são obras de ficção. Encontros promissores nem sempre se transformam em amizade e idéias potencialmente ricas às vezes não levam a parte alguma. Pessoas e preocupações importantes entram em nossas vidas e em nosso pensamento cedo e tarde, durante período de tempos diversos, e depois desaparecem para nunca mais voltar. Embora retrospectivamente possamos rastrear nossas linhas causais entre os eventos e enxergar vínculos diretos entre pensamentos, ao fazê-lo podemos interpretar mal as conexões existentes entre eles. Nosso empenho em dar uma seqüência coerente aos eventos é facilmente subestimado. Negligenciando o papel dos fatores contingentes que não necessariamente poderiam ter acontecido, limitamo-nos a imaginar o produto acabado, com a exclusão de outros igualmente possíveis. As idéias que aparecem antecipar outras poderiam, na verdade, ter tomado outra direção e, ao longo do tempo, semelhanças aparentes podem atestar pouco mais do que hábitos de pensamentos característicos. As memórias e biografias tendem obsessivamente a excluir acidentes e a insistir em padrões, mas as vidas e as carreiras intelectuais, segundo Bakhtin, não o fazem. Elas são prodigas, produzindo não só realizações diversas mas também potenciais não-realizados ou apenas parcialmente realizados.


MORSON, G. S. Mikhail Bakhtin: criação de uma prosaística. tradução de Antonio de Pádua Danesi. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008. p. 21.

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