11 setembro 2009

Nin, Süskind e Ferreira


"Quando estou com problemas, confusa, perdida, invento a amizade de um velho sábio com quem converso. Falo sobre ele com todo mundo, como ele é, o que disse, o efeito dele sobre mim (alguém em quem se apoiar no momento), e no final sinto-me fortalecida por minha experiência com o velho sábio e tão satisfeita como se tudo fosse verdade. Também inventei amigos quando os que eu tinha não eram satisfatórios. E como desfruto de minhas experiências! Como elas me contentam, acrescentam coisas a mim. Ornamento."

Henry & June - Anaïs Nin


"Quando estava morta, ele a deitou no chão, em meio aos caroços de nectarina, e rasgou o seu vestido, e o fluxo de aroma tornou-se uma enchente, inundando-o com o seu cheiro agradável. Ele mergulhou o rosto na sua pele e, com as narinas bem infladas, percorreu o ventre até o peito, até o pescoço, percorreu seu rosto e os cabelos, voltando até o ventre, descendo até o seu sexo, até suas coxas, até suas pernas brancas. Ele a farejou da cabeça até os dedos dos pés, coletou os últimos restos de sua fragrância no queixo, no umbigo e nas dobras do cotovelo."

O Perfume - Patrick Süskind


«Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos... É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais directa que suporta uma margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de acaso, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória. Por sobretudo, porém, agrada-me falar desde o centro deste Inverno e desta cidade mortal que me cercam.»


Carta ao futuro - Vergílio Ferreira
Escrita em Évora, em Dezembro de 1957

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