03 setembro 2009

Mrs. Delgado


Ao que parece, o pai dela era judeu e a mãe descendia de metade dos povos da Europa. Quando menia, aprendera vários idiomas e os falava com perfeição. Não havia um em que não pudesse ser mestra, se o desejasse. Aprendia por prazer. Aos dezesseis anos, dominava não só francês, italiano e alemão, parte das habilidades correntes de uma dama, como também todos os idiomas do mundo civilizado (e do não civilizado). Falava o idioma da região montanhosa da Escócia (que é como cantar). Falava basco, língua que raras vezes causa alguma impressão sobre a inteligência de um povo, de forma que alguém pode ouvi-lo com a frequencia e o tempo que desejar sem jamais conseguir se lembrar de uma sílaba sequer. Aprendera até mesmo o idioma de um estranho país que [...] alguns acreditavam ainda existir, embora ninguèm soubesse onde ficava. (O nome desse país era Gales.)

Ela viajara o mundo e comparecera ante reis e rainhas; arquiduques e arquiduquesas; príncipes e bispos; grafs e gräfins, e com cada uma dessas personalidadesela conversou no idioma que elas haviam aprendido quando crianças, e todas declararam-na um prodígio.

Até que por fim foi a Veneza.

A dama, no entanto, a modererar o seu comportamento, por pouco que fosse. À sua sede de aprender juntavam-se outras sedes, e ela casou com um homem semelhante. A dama e o marido chegaram no Carnevale e nunca mais foram embora.Prederam toda a fortuna em jogatinas no Ridottos. A saúde, perderam em outros prazeres. E numa manhã, quando os canais de Veneza estavam prateados e róseos com a luz do alvorecer, seu amrido deitou-se nas pedras molhadas do Fondamenta dei Mori e morreu, e não houve nada que alguém pudesse fazer para salvá-lo. E o melhor que sua esposa talvez pudesse fazer seria o mesmo, pois não tinha dinheiro nem para onde ir. Mas os judeus se lembraram que a dama tinha algum direito à caridade deles, sendo ela mesma de certa forma judia (embora jamais o tivesse admitido), ou talvez tenham se condoído dela como criatura sofredora (pois os judeus também sofriam com paciência em Veneza). Qualquer que tenha sido a razão, deram-lhe abrigo no Ghetto. As histórias variam quanto ao que sucedeu depois, mas todas concordam que ela vivia entre os judeus, porém não era um deles. Vivia muito sozinha, e se por culpa dela ou deles não sei. Muito tempo se passou, e ela não falava com ninguém, e um forte vento de loucura uivou dentro dela e derribou todos os seus idiomas. Ela esqueceu o italiano, esqueceu o inglês, esqueceu o latim, esqueceu o basco, esqueceu o galês, esqueceu tudo no mundo, exceto a linguagem dos gatos, e esta, diziam, ela falava maravilhosamente bem.


Jonathan Strange e Mr. Norrell - Susanna Clarke.
imagem:
Frau mit Katze - Renoir

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