08 julho 2009

Um Certo Gato Ridente

DENNiS D. do CADERNO MÁGiCO

Era uma vez um gato preto que se chamava Donatello. Não podemos dizer que gatos tenham dono, porquanto os felinos são uma categoria muito altiva de animais, altiva demais para se deixar pertencer aos humanos. Então diremos que Donatello tinha dois mantenedores: o velho poeta Álvaro de Hermione e sua esposa, Geraldina Penna Verde de Hermione.

Gatos que moram com poetas desenvolvem atitudes "literárias"; são mais do que bichos, são praticamente personagens. Para não contrariar essa regra, Donatello tinha uma característica única, muito especial, que o distinguia dos demais bichanos: Donatello era um gato que ria! Ou que parecia rir, pelo menos.
Um dia, quando Donatello ainda era um filhotinho, a mulher do poeta entrou esbaforida na cozinha. Trazia nos braços muitos sacos de compras, de onde se viam emergir penachos verdes de cenouras, talos de rabanetes, maços gordos de couves, algumas espigas de milho... Foi o tempo de Donatello botar os olhos em Geraldina... para começar a emitir um chiadinho fino que, pouco a pouco, assumiu a sonoridade de um riso sincopado. Algo assim: "hi-hi-hi-hi-hi-hi-hi"! A mulher do poeta fez cara de espanto, acabou tropeçando e todos os sacos de compras caíram ao chão. Que balbúrdia!

Passados alguns dias, Álvaro de Hernione, em pessoa, levou Donatello ao melhor veterinário da cidade. O clínico, depois de um exame bem longo, concluiu que o tal riso do gatinho se devia a um incomum estreitamente do septo nasal, mas este desvio em nada prejudicaria a vida do animal. Devidamente tranqüilizado, o velho poeta voltou a casa.

Como era época de eleições, Álvaro resolveu fazer uma brincadeira. Colocou Donatello diante das fotografias dos três principais candidatos e fez a pergunta: "E então, meu gatinho ridente, qual deles será o vitorioso?" O bichano observou atentamente cada retrato, depois fixou os olhos verdes no que estava à direita e desatou o riso: "Hi-hi-hi-hi-hi-hi!" O poeta considerou: "Parece que sua escolha é realmente a mais sensata. Vamos ver no que dá!"

Quando proclamaram os resultados finais da apuração, o candidato "assinalado" por Donatello foi fragorosamente derrotado nas urnas. Só então o poeta juntou dois com dois e concluiu que o bichano tinha o misterioso dom de rir de quem estava em vias de sofrer algum tipo de revés, algum desastre.

O tempo provou que tal teoria era bem correta: Donatello riu para o carteiro - o carteiro foi mordido pelo cão do vizinho; Donatello riu para o dono da padaria - este teve o seu carro furtado durante a madrugada; Donatello riu para a samambaia da varanda, esta apanhou uma praga e secou. "Não! Não" - explicava o poeta à sua Geraldina - "Não é o gatinho que traz azar; ele é apenas um profeta felino, um adivinhador do futuro. O nosso Donatello é um Nostradamus de quatro patas, minha velha!" E a vida foi seguindo...

Adulto, o gato ridente, deu para andar nos telhados, sair em farras, perder-se em orgias que duravam até o amanhecer. Devagar, mas inexoravelmente, foi deixando de rir. Perdeu seu dom. O poeta lamentou muito essa perda, mas Geraldina sentiu-se aliviada. Era-lhe um pouco desconfortável conviver com um Nostradamus de quatro patas e cauda longa. E a vida continuou seguindo...

Como não há ganho sem perda ou perda sem ganho, com o sumiço do riso profético, Donatello tornou-se mais afetuoso, mais dedicado ao seu mantenedor. Sempre que o céu noturno se revelava limpo de nuvens, o poeta e o gato ficavam horas à janela do apartamento; Álvaro a dizer versos em voz alta e Donatello a contemplar as estrelas do Cruzeiro do Sul. Aliás, aquela constelação, em particular, agradava muito ao bichano. E ao dar-se conta daquele misteriosa predileção astronômica, o poeta achou por bem consultar as enciclopédias, para então explicar ao gato: "Aquela estrela ali, na ponta mais alta, é a Gacrux. À esquerda dela está a Pálida e à direita... a Mimosa. A da ponta de baixo é a Acrux e aquela pequenininha, Donatello, você nem tem idéia de como se chama... É a Intrometida! Não é um nome engraçado? E a vida foi e foi...

Geraldina morreu dormindo. Morreu num sábado e foi enterrada no domingo, ao cair da tarde. Já estava bem velhinha, a mulher do poeta... faria 89 anos. Álvaro já passara dos noventa, sentia-se fraco e sabia que sua hora também não tardaria a chegar. Ele e o gato preto eram agora inseparáveis.

"Por quê" - indagou o poeta a si mesmo, certa noite de lua cheia - "não podemos eu e Donatello voar por esse veludo celeste, entre tantos milhões de estrelas, um gato e seu amigo humano, duas almas que só têm uma a outra? Por que, meu Deus? Por quê?"

"Hi-hi-hi-hi-hi-hi-hi-hi!" - Donaltello pôs-se a rir. Pôs-se a rir outra vez, depois de anos e anos. Ria sem parar, ria e tremia, comovido, a pelagem negra e sedosa do peitilho toda molhada de lágrimas, ria e chorava, chorava e ria, os olhos cansados e cada vez mais verdes, cada vez mais verdes e translúcidos...

Quando o dia amanheceu, o primeiro raio de sol iluminou o gato Donatello. Ele estava mudo, de costas para a janela, velando o sono eterno de seu amigo poeta. Eram seis horas da manhã de um domingo qualquer...

fonte: livro dos gatos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ronrone à vontade.