27 agosto 2018

Via de regra, você não escreve literatura


*Por Daniel Prestes

Nessa semana que passou, escrevi um texto para o site Os Entendidos, coluna Estante que assino e versa sobre livros lidos, sobre a polêmica envolvendo o escritor Ronaldo Bressane, Tatiana Feltrin e Paulo Roberto Pires, que, assim como J. Pinto Fernandes, não estava na história.

No texto em questão, apontei alguns desconhecimentos acerca a história do livro, de sua circulação e recepção. Hoje, volto ao tema, mas pensando necessariamente a ideia do literário enquanto instância autônoma como bem cultural.

O nosso conceito de literatura advém do século XIX, antes disso ele significava e dava conta de outra coisa. Marcia Abreu em um texto sobre o discurso fundador da Literatura, evidencia por exemplo que, Dante, Shakespeare, Camões entre outros dos nossos grandes escritores de Literatura, não faziam Literatura. Isso é possível porque no momento em que eles escrevem, Literatura não é o mesmo que é para nós hoje em dia.

Literatura surge no XIX para designar um tipo específico de produção escrita, literária, que se opõe a um outro tipo de produção escrita, científica ou outra. Também surge como parâmetro para diferenciar obras e autores, criando assim uma hierarquia. Bourdieu aborda um pouco isso em As Regras da Arte, quando fala das polêmicas envolvendo Flaubert e Baudelaire, e do movimento “arte pela arte”, que basicamente propunha que um autor não deveria se submeter as regras e imposições do mercado, que o seu tempo de produção era outro, já que ele produzia arte.

Essa perspectiva dicotômica em que o que tem sucesso e é consumido em larga escala deve ser visto como menor, vêm já desde esse momento.

Para além disso, Moretti em seu livro O Burguês, aponta também que ler literatura se tornou um traço de distinção entre as pessoas. Para entender o que o professor quer dizer é necessário compreender o momento em que isso passa a acontecer. Antes, poucas pessoas sabiam ler, já no XVII a França e alguns outros países da Europa já tinham uma boa parte se uma população letrada, daí que, se por muito tempo saber ler era um traço que distinguia uma pessoa da outra, principalmente, um senhor de um plebeu, ou de uma dama de companhia de uma lavadeira, quando isso se perde, precisou-se, de certo modo, reorganizar as coisas para mantê-las como sempre estiveram. Daí que Literatura enquanto textos que só iniciados, cultos, poderiam e conseguiriam ler e compreender. Literatura torna-se assim o cultivo do bom gosto.

A crítica literária assume justamente esse papel regulador, embora, sem parâmetros e conceitos bem estabelecidos, utilizando-se muitas vezes de normas da retórica a fim de julgar os textos. A crítica, como já disse anteriormente no texto publicado nos OsEntendidos, só passa a ter um caráter objetivo, racional e com técnicas de análise do texto no século XX, dentro das universidades, nos programas de graduação e pós-graduação que vão surgindo a partir da década de 40.

E quando isso acontece, se dá entre polêmicas, pois quer se contrapor a crítica feita no jornal, a crítica de rodapé, que era praticada desde o XIX, e que consagrou muitos de nossos escritores e críticos.
Ou seja, quando um autor ou crítico diz que o que está/é feito em veículos de comunicação em massa, ele está revivendo essa disputa pelo espaço do crítico, revivendo a disputa pelo “quem pode falar sobre livros”.

Ele se arvora numa ideia de que ele é o único sujeito capaz de lidar com a obra literária, porque ele é um especialista, um inciado, logo ele sabe o que é literatura. Um pensamento eurocêntrico de que ele tem como função civilizar essa massa de gentios que leem qualquer coisa. Mas as coisas não são bem assim...

Antes de continuar, gostaria de pedir desculpas a todos os escritores contemporâneos, porque, devo dizer que, a rigor, vocês não fazem literatura. Vou explicar o porquê.

Para ter o seu nome entre o rol de obras e autores do cânone nacional é preciso que algumas etapas sejam atingidas pelo autor e texto. Em Trajetórias da consagração, tese da professora da Universidade Federal do Pará, Valéria Augusti mostra quais são essas etapas, pensando o século XIX no Brasil. Ainda que esteja situado no XIX, as instâncias legitimadoras do texto literário enquanto literatura continuam os mesmos, e são: recepção crítica boa nos periódicos e entrada no ensino. Podemos desdobrar a etapa do ensino, com o advento das graduações e pós-graduações em letras, inserindo aí, que as obras devem além de serem ensinadas (como elas devem ser lidas), que elas devem ser estudadas (criando modelos de leituras que serão ensinados nos colégios).

Isso cria uma rede que vai garantir que a obra continue sendo lida e, portanto, reiimpressa. Veja o caso de quantas editoras se lançam em projetos de publicação dos clássicos. Clássicos são clássicos por conta da sua permanência e esta não se dá por algo intrínseco ao texto, mas na forma como continuamos a ler esse texto, o que muitas vezes é mais fruto do que nos é ensinado.

Pascale Casanova, em sua República Mundial das Letras, acrescenta outros mecanismos que levam a consagração de um texto e de um autor, como são os casos de prêmios literários, prefácio ou comentário de algum autor importante sobre a obra, ser publicado por uma casa de publicação conceituada no meio literário.

Ou seja, para ser de fato literatura, do jeito tradicional e raiz, há muitos degraus a serem atingidos. Até o seu lugar geográfico pode influenciar nisso.

Daí, que um autor qualquer vir querer dizer que escreve literatura e ao mesmo tempo achar que o seu texto só pode ser abordado por alguém especializado como o crítico, pensando que a crítica se preocupa tão somente com estética, e não com questões sociais, psicológicas e de gênero, é bem desconhecer a história na qual se encontra afundado até a última célula do corpo.

Primeiro porque, como já se disse, ele não escreve literatura. Segundo que não é só o crítico que pode falar do texto literário. Terceiro, que a crítica enquanto entendimento do texto literário enquanto estética, bastando a si mesmo, é apenas uma das várias correntes das teorias críticas surgidas desde o final do século XIX.

E mais que desconhecer, e a empáfia de quem se acha melhor que o outro porque escreve, esquecendo-se que, não adianta escrever, não adianta ter crítica, se você não for lido. Mesmo o nosso ilustríssimo Machado de Assis um dia já reclamou que queria ser lido.

*Daniel Prestes da Silva é graduado em Letras pela Universidade Federal do Pará e Especialista em Língua Portuguesa e Análise Literária pela Universidade da Amazônia. Atualmente é mestrando em Estudos Literários no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Pará, desenvolvendo pesquisa nas áreas de História do Livro e da Leitura, História da Crítica no Brasil e recepção de prosa de ficção brasileira na contemporaneidade.

07 agosto 2018

Sérgio Y. vai à América, de Alexandre Vidal Porto

Sérgio Y. vai à América (capa)
Sérgio Y. vai à América, romance publicado pela Cia das Letras de Alexandre Vidal Porto, narra a busca do psiquiatra Armando em tentar compreender o que aconteceu com o seu paciente Sérgio Y., após vários anos de ele ter sido seu paciente e ter encerrado o tratamento sem muitas explicações.

16 março 2018

O conto da Aia, de Margaret Atwood

O conto da Aia (capa)
O conto da Aia, de Margaret Atwood e publicado no Brasil pela Editora Rocco traz o relato de OfFred sobre a sua vida na nova casa em que ela vai morar a fim de poder exercer a sua função como "barriga de aluguel" de um comandante de Gilead.

Gilead é uma região norte-americana em que é instituído um governo ditatorial de viés religioso, depois de várias situações, dentre elas a baixa natalidade infantil.

Toda a base deste governo, como vamos descobrindo durante o relato de OfFred, é de base patriarcal em que as mulheres são tuteladas ou pelos maridos ou por instituições de formação, como o é a escola das Tias, para onde OfFred é levada antes de se tornar Aia e ir para casa do comandante.

Pensando o período histórico externo à obra e que nela vai aparecendo, percebemos que tudo ocorre após os movimentos revolucionários que impactaram os anos 60 e 80 do século passado, principalmente no que se refere ao feminismo.

É justamente em relação a essa questão feminista que o livro dá muitas margens para a reflexão dos caminhos que nossa sociedade tem tomado, contudo não é este o caminho que gostaria de tratar nesse texto, até por não me sentir capacitado para discutir de modo relevante sobre o feminismo.

Queria tratar, neste texto, sobre a forma como a distopia é construída face a forma clássica distópica, verificada dentro de obras como 1984, Admirável mundo novo ou Nós.

05 fevereiro 2018

Elvis & Madona, de Luiz Biajoni

Elvis & Madona (capa)
Elvis & Madona, de Luiz Biajoni é um romance baseado no filme de Marcelo Laffitte e foi publicado pela editora Língua Geral em 2010.

19 janeiro 2018

Bate-papo e Sessão de autógrafos com Gidalti Jr.

Castanha do Pará (capa)
Nessa quinta-feira (18), rolou na Livraria Fox, da Dr. Moraes, um Bate-Papo e Sessão de Autógrafos com Gidalti Jr., autor premiado com o Jabuti em 2017 com o quadrinho Castanha do Pará.